quarta-feira, 15 de março de 2017

The Meeple



Desde que o evento começou que eu estava querendo ir lá, isso já tinha mais de um ano. Finalmente, neste último sábado, consegui criar coragem e atravessar a "poça" (como a gente chama aqui no RJ). Há anos que eu não pegava a barca, que é o jeito mais legal de fazer a travessia. O restaurante Tio Cotó, local onde ocorre o The Meeple, é relativamente próximo da estação das barcas, uns 15 minutos mais ou menos de caminhada.

O evento começa às 14 horas, mas a gente chegou lá por voltar das 18 horas. Apesar de estar bastante cheio, o ar-condicionado do local deu conta legal, uma informação super importante para todos os cariocas. O The Meeple ocorre em uma área separada do restante do restaurante, que lembra um pouco um salão de festas. Isso dá uma privacidade maior ao evento, coisa que eu acho particularmente bacana. Além de facilitar o monitoramento das atividades por causa do acesso mais controlado.

Espaço onde rola o evento.

Os meninos da organização usam camisetas e crachás, o que os torna facilmente identificáveis. Eles são bem simpáticos na recepção das pessoas e solícitos na explicação dos jogos. Uma coisa que sempre me chamou atenção no The Meeple é o quanto ele é bem organizado. As informações sobre os jogos que estarão disponíveis são sempre divulgadas previamente. Tem uma placa identificando a área do acervo e eu acho bem bacana o uso das toalhas de mesa com o nome do evento.

Organizadores facilmente identificáveis.

Apesar de realizar evento em uma praça de alimentação de shopping e da maioria dos eventos que frequento sempre serem em locais com consumo de comida e bebida, nunca tinha visto uma convivência tão intensa entre alimentos e jogos como no The Meeple. É sempre bastante perturbador vê-los dividindo a mesma mesa. 

A convivência entre comida e jogos na mesma mesa.

Como a gente chegou um pouco tarde já, nem deu para jogar muita coisa. O pessoal da Conclave Editora estava lá, rolou um sorteio bem bacana de uma cópia do 4 Gods para quem jogou algum dos jogos deles durante o evento. Eu estou bem curiosa para jogar Barony e Ultimate Warriorz. Também quero jogar 4 Gods novamente, ainda não experimentei a versão final. Depois de escrever sobre Isle Of Skye, fiquei com vontade de escrever sobre ele, por ter também aquela pegada Carcassonne.

4 Gods tem um conceito de tile placement em tempo real bem interessante.

Acabei jogando Attack On Titan Deck-Building Game, o novo jogo lançado utilizado o sistema Cerberus da Cryptozoic, mesmo sistema do DC Comics Deck-Building Game. Quando foi anunciado, eu não levei muita fé. Mas a adaptação ao tema ficou bem bacana. Começa pela acertada decisão de colocar o jogo como um cooperativo. Depois temos a introdução da muralha como elemento central, com toda a dinâmica compra de cartas e enfrentamento de inimigos controlada por ela. Não vou entrar em muitos detalhes aqui, pois certamente vai rolar em breve post completo e vídeo sobre o jogo. Sinto que ele vai ver muita mesa este ano.

Bom trabalho de adaptação da mecânica ao tema.

Basicamente, para vencer é preciso derrotar quatro titãs arqui-inimigos e perdemos se todas as partes da muralha forem destruídas ou dois personagens forem mortos. As habilidades individuais dos personagens aqui são muito importantes e como todo cooperativo as ações precisam ser bem combinadas. Jogamos em 4 pessoas e surpreendentemente conseguimos vencer. Até pensei que tínhamos jogado com alguma regra errada, mas ao conferir depois vimos que estava certinho. É um jogo difícil, mas não tanto quanto outros cooperativos. Ou talvez tenha rolado aquela sorte de principiante. 

Depois jogamos dois joguinhos fillers, um chatinho e outro legal. Achei Celestia bastante insatisfatório porque falha no que considero principal em um jogo de press your luck, não provoca nenhuma emoção. Isso o torna monótono e repetitivo. Rola-se os dados e o jogador da vez precisa jogar cartas com os mesmos símbolos do resultado. Os demais jogadores devem apostar se ele tem as cartas, permanecendo na viagem, ou não, descendo naquele ponto e comprando um carta de pontuação. 

Bonito, mas não divertiu.

Ao longo do caminho, as cartas vão aumentando de valor. Se o jogador não possui as cartas, todos que estiverem com ele voltam ao início do caminho. Quem decide descer fica sem jogar até que isso aconteça. O jogo acaba quando um jogador soma 60 pontos. Celestia é bem bonito e pode ser que funcione bem como gateway, porém achei caro (R$200) para o que oferece, acredito que existem opções mais interessantes para se adquirir na mesma faixa de preço 

Minha experiência com Loot já foi melhor. Não é nenhum jogo incrível, mas ao menos diverte. Os jogadores possuem cartas de navios piratas e mercantes, além dos próprios piratas e almirantes. Na sua vez, o jogador pode colocar um navio mercante na mesa ou baixar um navio pirata para tentar pegar a carta de navio mercante de outro jogador. É um jogo de gestão de mão com leilão. O lance é que os jogadores não podem jogar cartas de piratas de cores repetidas. As cartas de piratas e almirantes permitem vencer automaticamente uma disputa, mas precisam ser baixadas de acordo com a cor. O jogo acaba quando o deck chega ao fim.

Imagem meramente ilustrativa retirada do BGG.

Eu gostei bastante do evento, espero poder voltar outras vezes. Até porque ainda quero ir na hamburgueria e no café com boards e também ficam lá em Niterói. Pelo que me disseram fica tudo meio perto um do outro. Talvez em um próximo The Meeple, eu consiga ir mais cedo para fazer turismo por lá.

Aproveitando que o Igor Knop e o Patrick Matheus estavam no The Meeple playtestando o Gnomopolis, gravamos um pequeno bate-papo com os dois sobre o jogo. Eles também estarão com a gente no Guadalupeças (dia 19). Venha conhecer antecipadamente mais um futuro sucesso nacional.


sexta-feira, 3 de março de 2017

Carnaboards: JogaJF e Conclave Editora


No último domingo, tive a oportunidade de visitar meu primeiro evento em outro estado. Foi uma viagem bem rápida, mas muito divertida. Fomos eu, Felipe, Jesiel (Meeple Divino) e Talita. Chegamos na hora do almoço em Juiz de Fora e fomos muito bem recebidos pelo simpático Igor Knop (Jogatina na Batista), que nos levou para comer em um lugar ótimo. De barriga cheia, nossa primeira parada foi no evento JogaJF que ocorre no China In Box. Eu não almocei lá porque comida chinesa não é a minha praia, mas todos os demais consumiram alguma coisa ao longo do dia. Faço questão de ressaltar isso, porque muitos eventos de boardgames acontecem em lugares que comercializam comida e eu acho importante a galera dar uma força consumindo no local.

Enchendo a barriga antes do evento.

O espaço disponibilizado é bem bacana, fica no segundo andar, separado da área mais movimentada do restaurante. Isso dá mais privacidade e liberdade para o evento. Além disso, o local é bastante arejado, pois além de um ventilador potente, ele possui uma pequena área externa. Eu senti até frio, já que choveu praticamente durante todo o dia. Porém, mesmo com chuva, o evento atraiu uma boa quantidade de pessoas. Infelizmente, fiquei estava tão concentrada em jogar que acabei esquecendo de tirar fotos. Eu sofro bastante com esse problema, aí acabo tirando fotos para postar apenas no meu Instagram pessoal. 

Início do evento e já estava bem cheio.

Acho que o saldo do dia foi bem positivo, joguei quatro jogos que eu ainda não conhecia. Só para abrir a jogatina é que comecei com um bom e velho DC Comics Deck-Building Game. Depois tive a oportunidade de conhecer o tão comentado Santorini. Fizemos uma sessão Histeria Games com Masmorra: Dungeons Of Arcadia e Reinos de Dunagor. E para fechar os trabalhos, uma partida rápida de Jórvík, lançamento da Conclave Editora

Santorini me decepcionou um pouco, achei simples demais, muita beleza para pouco jogo. Cada jogador tem dois workers e na sua vez pode mover um deles e realizar uma ação de construção. Os prédios tem um limite de três andares, o vencedor é aquele que conseguir colocar seu worker no alto do terceiro pavimento. Para impedir que isso aconteça, os jogadores podem construir cúpulas no alto dos prédios. Um worker só pode subir um andar por vez, mas para descer é livre. Uma boa estratégia é tentar bloquear o caminho do oponente. Cada jogador conta também com um deus que dá uma habilidade especial. Ele me lembrou muito um joguinho pequeno que eu tenho chamado Docker, já escrevi sobre ele aqui.

Vitória nas duas partidas que eu joguei.

Santorini é um jogo que impressiona pela beleza.

Eu não gosto de Masmorra de Dados e nem de Arcadia Quest, então foi com zero de expectativa que fui jogar Masmorra: Dungeons Of Arcadia. Não achei que houve nenhuma mudança significativa em relação a versão nacional. É apenas o mesmo Masmorra de Dados só que com miniaturas de Arcadia Quest no lugar dos dados de heróis e os dados de monstro agora são maiores e com ilustrações chamativas para combinar com o restante da estética nova.

A CMON deixou o jogo visualmente mais atrativo.

Quanto ao Reinos de Drunagor, eu até que achei ele bem interessante, o problema é que me lembrou demais Warcraft, então ficou aquela sensação de versão genérica. É uma boa opção dentro do mercado nacional para quem gosta do esquema de coletar recurso, construir coisas e matar monstros. A qualidade dos componentes está muito boa e o preço justo para o porte do jogo. Gostaria de jogá-lo novamente para uma melhor apreciação, eu joguei só com o Felipe, acredito que com mais jogadores ele deva brilhar mais. 

Uma proposta diferente dentro do que temos disponível no mercado nacional.

Componentes bonitos e de boa qualidade.

Jórvík foi jogado na versão rápida de meio tabuleiro porque já estávamos no final do evento, minha intenção foi mesmo ter uma visão geral de como era o funcionamento do jogo. Ele é bem simples, basicamente work placement com manipulação de mercado. Todo turno cartas são abertas e o valor delas é determinado pelo interesse demonstrado pelos jogadores. Apesar de não ter uma habilidade muito grande, exige boa visão de mesa e capacidade de blefe, é um tipo de mecânica que me agrada bastante. Quero jogar novamente, mas não acho que compraria o jogo. O tema é totalmente colado com cuspe e a arte é feia.

Partidinha no modo rápido, metade do tabuleiro, só para conhecer.

Depois do JogaJF, ainda demos uma passadinha na casa do Igor e jogamos Pega em 6 e That´s Life, mini sessão de Kramer. Eu achava que não sabia jogar Pega em 6, mas eu descobrir que o problema é o povo do BGA que é muito monstro nesse jogo. Eu só tinha jogado online, foi a primeira vez fisicamente. Ganhei o jogo e em nenhum momento tive a sensação de não saber o que estava fazendo como sempre ocorre quando estou online. 

Print BGA.

Pega em 6 é um jogo de gestão de mão e pouco de sorte, o que pode desagradar alguns jogadores. Porém, quanto mais eficiente for seu gerenciamento das cartas, menor será o efeito da sorte, apesar dela nunca ficar de fora da equação totalmente. Os jogadores possuem 10 cartas que serão distribuídas ao longo de 4 fileiras por proximidade de valor. Cada fileira possui um limite de 5 cartas, quando a sexta é colocada, o jogador responsável pega todas as cinco cartas que estavam nela. 

As cartas possuem além dos números em si, uma determinada quantidade de chifres. Quando a soma dos chifres das cartas acumuladas por um jogador chega a 66 a partida termina e vence aquele que tiver a menor soma de chifres. É um jogo simples, mas bem divertido, quando você finalmente consegue saber o que está fazendo. Ele é relativamente fácil de achar e super barato. Comporta até 10 jogadores.

Em That's Life, o Kramer mostra que dá para fazer jogo divertido usando roll and move. A mecânica mais popular e desprezada dos jogos de tabuleiro ganha uma nova vida através da adição de elementos para mitigar a sorte. Os jogadores possuem três workers e podem escolher qual deles mover livremente. O caminho é formado por tiles negativos (maioria), positivos e alguns que transformam negativos em positivos, chamados de tiles de sorte. É uma sequência: negativos, sorte, positivos e negativos. 

Um role and move estratégico.

Cada tile de sorte acompanha também um tipo especial de worker. Isso é importante porque quando o jogador move um worker seu que está sozinho em um tile, ele retira esse tile da partida para contar como sua pontuação. O jogador sempre deve tentar permanecer em um tile negativo até que tenha ao menos um outro oponente junto, saindo o mais rápido possível quando isso ocorrer. No caso dos tiles positivos, a luta é para ser o último a sair. Os workers especiais servem para ajudar o jogador e atrapalhar os oponentes. Eles funcionam como uma espécie de worker fantasma, dando uma opção adicional. Porém, só podem ser movido se estiverem acompanhados de, ao menos, um worker de jogador.

That´s Life é um jogo sem nenhum atrativo estético e que nem tenta colar tema nenhum, sendo puramente abstrato. Achei incrível como acrescentando apenas poucos detalhes, Kramer foi capaz de usando uma mecânica tão simplória criar um jogo elegante e estratégico. Uma verdadeira aula de game design. Sempre fico feliz quando tenho a oportunidade de ter contato com jogos assim, é como observar os mecânicos de um relógio. Eu gosto bastante de jogos temáticos e com artes elaboradas, mas isso acaba por vezes mascarando mecânicas pobres, desprovidas de engenhosidade.

No dia seguinte, segunda-feira, visitamos a sede da Conclave Editora. Fomos muito bem recebidos pelo Cristiano e pelo Kleber, uma pena que não deu para jogarmos nada. Porém, o bate-papo foi bem agradável. Sempre legal saber como rola as negociações com as empresas lá de fora e como são as coisas nas feiras internacionais, principalmente em Essen. Algumas histórias de bastidores sobre disputas por licenças com outras editoras nacionais. E como nem tudo são flores, as dificuldades do nosso mercado, impostos e mais impostos.

Já me conquistou logo na entrada.

Teria dado uma bela entrevista se eu tivesse me organizado para isso. Eles comentaram bastante sobre o contrato com a Haba, que é algo que eu tenho bastante interesse, pois é um segmento completamente inédito de jogos chegando ao Brasil. E a qualidade de todo material da Haba é sensacional. Espero que a Conclave consiga logo vencer todo o embaraço da certificação do Inmetro. Falaram também sobre a nova edição do Dominion que está chegando, lançamento de expansões e kit de conversão para quem possui a edição anterior. 

Ambiente bastante acolhedor para bater um bom papo.

Dando uma espiada básica no depósito.

Durante toda a visita, fiquei só de olho na estante de jogos, tentando identificar futuros lançamentos em potencial. Eles disseram que muitos dos títulos que estavam ali haviam sido oferecidos por editoras em reuniões. A Conclave é a editora nacional com um dos catálogos mais diversificados, sempre surpreendendo bastante na divulgação dos seus lançamentos com títulos inesperados.

Será que temos algum futuro lançamento nessa estante?

Foto clássica de visita.

Como eu já disse no início do texto, foi uma viagem bem rapidinha, mas super divertida. Deu para jogar bastante coisa, apesar de não ter conseguido jogar nenhum dos jogos mais pesados que eu queria. Só pude mesmo ficar admirando a coleção do Igor Knop, devia ter batido uma foto. Espero algum dia ter uma coleção como a dele. Meu muito obrigada ao Igor por nos receber tão bem, foi muito legal conhecer o JogaJF. Agradeço também ao pessoal da Conclave Editora por ter aberto as portas para gente e disponibilizado seu tempo para nos atender. Espero que possamos jogar em uma próxima oportunidade. E espero também conseguir visitar mais eventos fora do RJ.

Fotinha turística para fechar o post. :)

quarta-feira, 1 de março de 2017

Isle Of Skye


Faz um bom tempo que estou para escrever sobre Isle Of Skye aqui no blog. Já tem alguns meses que o jogo está na minha lista de espera junto com tantos outros títulos maravilhosos. O vencedor do Kennerspiel des Jahres de 2016 causou bastante comoção devido as comparações com Carcassonne, um dos maiores clássicos modernos. Como grande fã do inconfundível jogo de colocação de tiles de Klaus-Jürgen Wrede, vencedor do Spiel des Jahres de 2001, foi com bastante ansiedade que fui jogá-lo pela primeira vez.

Sendo o Spiel des Jahres um prêmio essencialmente dedicado aos jogos familiares, em 2011 foi criado o Kennerspiel como uma categoria para premiar jogos mais complexos. Muita gente reclama da premiação, por não contemplar jogos verdadeiramente pesados, que acabam no máximo figurando na lista de recomendações do prêmio. Assim foi com Mombasa, outro jogo muito elogiado do Alexander Pfister, em 2016 e com o tão adorado Terra Mystica em 2013.

Se Carcassonne ganhou o Spiel des Jahres e o Isle Of Skye ganhou o Kennerspiel des Jahres, logo podemos concluir que um é mais simples do que o outro. Antes de prosseguir é importante deixar claro que faço referência a conjunto de regras, não a questões estratégicas. Carcassonne é um jogo extremamente simples de ensinar, são quatro formas diferentes de pontuar de acordo com a forma como os tiles e meeples são posicionados. A partir daí, vai de cada jogador como maximizar sua pontuação.

Setup montado para dois jogadores.

Isle Of Skye utiliza o princípio básico de colocação de tiles característico do Carcassonne, mas retira sua outra grande mecânica que é o controle de área ao individualizar o mapa. Cada jogador tem a sua própria área e a organiza da forma que desejar, sem a interferência direta dos demais. Em Carcassonne, a colocação dos tiles é realizada de forma coletiva em um mesmo local, então é preciso ter um planejamento flexível.

Cada jogador organiza seu mapa da forma que desejar.

Outra questão de bastante aleatoriedade em Carcassonne que é alterada em Isle Of Skye é a forma como os tiles entram em jogo. Ao invés de simplesmente pegar um tile randomicamente em uma pilha ou sacola, foi implementado todo um sistema de seleção muito interessante, e que é o coração do jogo. Cada jogador retira três tiles da sacola, secretamente escolhe um para eliminar e coloca preço nos restantes. Então, os jogadores irão pagar o valor informado para comprar um tile do oponente que seja do seu interesse.

O biombo além de servir para fazer as escolhas secretamente, ainda tem um resumo bem útil das fases do turno.

Um jogador compromete seu dinheiro ao precificar seus tiles, por isso é preciso avaliar bem quanto colocar em cada tile e quanto reservar para comprar os dos oponentes. Os tiles do jogador que não forem comprados por ninguém, ficam com ele. Então, uma estratégia para permanecer com o seu próprio tile é colocá-lo por um preço bem alto. O problema de fazer isso, é que deixa claro sua intenção. Assim sendo, é uma linha de ação mais imediatista e arriscada. Vai ser interessante ou não dependendo da situação da partida. A forma de ganhar dinheiro, além da venda dos tiles, é pela quantidade de tiles com baús ligados ao seu castelo, que é o tile inicial, no início de cada turno.

É preciso ficar esperto para posicionar os tiles com baús ligados por estradas ao seu castelo.

Os critérios de pontuação em Isle Of Skye variam de uma partida para outra. Em cada uma delas serão usados quatro tiles de pontuação de diferentes, em princípio separados e depois combinados ao longo dos seis turnos de duração da partida. O jogo vem com uma grande quantidades deles, o que permite bastante variação e aumenta ainda mais a sua rejogabilidade. A forma como os objetivos vão gradativamente se combinando durante a partida é bacana porque leva o jogador a pensar tanto a curto como a médio prazo.

Muito bacana o sistema de pontuação através de objetivos variáveis.

A primeira vez que joguei o Isle Of Skye tive um pouco de dificuldade com esse esquema de compra dos tiles. Não conseguia visualizar todas as opções e escolher a mais adequada com rapidez suficiente. Isso me fez ficar travada, gerando impaciência em todos na mesa, inclusive em mim mesma. Então, minha primeira avaliação do jogo não foi tão positiva. Até porque, meio que inconscientemente, acho que estava esperando aquele clima mais tranquilão de Carcassonne. A pegada do Isle Of Skye é muito mais tensa. 

Mesmo assim, gostei muito desse sistema de compra elaborado pelo Alexander Pfister, só achava que não era para mim. Além disso, demorei a enxergar o quanto ele era central no jogo. Nesse contato inicial, fiquei mais admirada com a pontuação variada e suas combinações. Só quando joguei novamente e superei a dificuldade com a seleção de tiles na compra foi que enxerguei melhor a elegância do processo.

Isle Of Skye foi bastante comentado aqui no Brasil porque além de ter vencido do Kennerspiel de Jahres, o que sempre aumenta a visibilidade de qualquer jogo, ele ganhou versão nacional em tempo recorde pela Papergames. Eu não tive contato com a versão gringa, mas achei a brasileira de ótima qualidade. O preço é um pouco mais elevado do que o do Carcassonne, mas acho justo para o porte do jogo, ele está saindo na maioria das lojas por volta de R$200. O Isle Of Skye possui semelhança suficiente para justificar a comparação com o Carcassonne, mas é diferente o bastante para que ambos possam figurar lado a lado na coleção

Confira o nosso vídeo para mais informações sobre o jogo:


terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Guadalupeças



Todo terceiro domingo de cada mês acontece o nosso querido Guadalupeças. Nesta edição, por ser mês de Carnaval, convidamos o game designer Leandro Pires para apresentar o protótipo do seu novo jogo para a galera. Em Ziriguidum, os jogadores administram escolas de samba. Ele tem um esquema de mercado que lembra bastante o Rock N Roll Manager, mas ao invés de instrumentos temos os itens que compõem em um desfile. As guitarras e baterias cedem espaço para fantasias e enredos. A pontuação básica do jogo é realizada através de duplas formadas por esses tiles que precisam ter uma das cores da bandeira da escola de samba do jogador. 



Achei essa semelhança com o Rock N Roll Manager um ponto positivo, pois ajuda na familiarização com o jogo. Porém, qualquer comparação para por aí, Ziriguidum possui uma identidade própria, passando bem longe de ser apenas uma troca de skin. O clássico Work Placement dá lugar a um sistema de administração e seleção de cartas que utiliza um tipo de draft parecido com o do Notre Dame. O jogador escolhe uma carta para si, outra para descartar e distribui as demais para os jogadores ao seu lado. Isso aumenta ainda mais a tensão já normalmente causada pelo draft, pois é preciso manter uma atenção muito grande em tudo que está sendo feito na partida. Além, é claro, que proporcionar um fator interação significativo. 

Eu já tinha tido a oportunidade de jogar o Ziriguidum no finalzinho do ano passado.. Ele já está em desenvolvimento há bastante tempo. Acho que praticamente desde que conheci o Rock N Roll Manager que ouço comentários de sua existência. O Leandro é um game designer que testa muito suas criações antes de lançar, o que faz com que ele coloque no mercado jogos bem equilibrados. Acredito que o Ziriguidum ainda vai passar por muitos testes antes de chegar ser lançado. Além disso, o Leandro já está com outro jogo quase saindo, o Tsukiji pela Redbox Editora. Porém, isso é papo para outro post.

Eu esperava que esta fosse ser a mais carioca de todas as edições do Guadalupeças, pois teríamos a presença do game designer Rodrigo Rego com o Maracanã, um de seus jogos mais recentes em desenvolvimento. Ele é uma disputa entre torcidas para ver qual será a melhor através bandeirões, fogos, cânticos, etc. Porque é a torcida que empurra o time. O Rodrigo já tinha vindo em uma edição anterior do evento para mostrar o Copacabana, jogo que já está com contrato assinado para sair pela Redbox Editora também. Acho muito bacana o trabalho dele com temática nacional, fora que a seleção e combinação de mecânicas de seus jogos são sempre muito elegantes. Infelizmente, o Rodrigo acabou não podendo nos prestigiar com a sua presença. Aguardemos uma próxima oportunidade. 


Além da presença do Leandro com Ziriguidum, tivemos também o Swami com o Triax, o Sanderson com o La Muerte e os meninos do Alpha, que apareceram de surpresa. O Triax é um cardgame abstrato bem bacana. Ele ficou em primeiro lugar no evento de Novos Designers promovido no início do mês pela loja Game Of Boards em parceria com o canal After Match, deixando para trás vários concorrentes de peso. Já o La Murte é um party game muito divertido, eu gostei muito da temática puxada para um "humor negro". Ele está sendo lançado pela Hod Studio e está em plena campanha de financiamento coletivo. Por último, mas não menos importante, o Alpha que eu vi pela primeira vez lá no evento de Novos Designers. Ainda não joguei, mas estou bem curiosa, pois é mais um na onda de jogos de luta.




Nesta edição do Guadalupeças, eu joguei pouco, mas joguei muito bem. Finalmente, tive a oportunidade de experimentar Tavarua, um inusitado jogo sobre Surf. Maravilhoso trabalho de design, todas as mecânicas muito bem amarradas ao tema. Além disso, o trabalho de arte é magnífico. As ações do jogo são realizadas através de cartas que são jogadas simultaneamente. 


Existem duas situações básicas: nadar em direção a onda ou estar surfando sobre ela. Quando o jogador está nadando, a numeração determina o seu deslocamento na água. Porém, quando ele já está sobre a onda, o valor informado na carta irá controlar seu movimento sobre a prancha. Isso foi uma sacada muito legal. Se o jogador mover um número de espaço maior que o disponível na prancha, ele desequilibra e cai na água perdendo a maior parte dos pontos acumulados. 

Além da carta do jogador, existe também uma carta de movimentação da própria onda. Então, o jogador deve evitar cartas que o coloquem em uma situação muito apertada, é preciso deixar uma margem de segurança. A carta da onda informa em seu verso as possibilidades, para o jogador ter como se preparar. As ondas são tiles sobre o tabuleiro e todo final de turno o mais abaixo para cima. Cada tile de onda é acompanhado por um dado. Para entrar na onda, é necessário que o valor do dado seja maior ou igual a posição que ele ocupa no tabuleiro. Se for igual, o jogador recebe um bônus por ter conseguido uma onda perfeita.


Existem dois tipos de prancha no jogo: longboard e shortboard, cada uma com suas características específicas. Os jogadores são obrigados a jogar com ambas, pois o resultado final será a soma da melhor pontuação com cada uma dessas pranchas. O jogo termina quando acabam as cartas de onda. Isso faz com que ele tenha uma duração bem variável, vai depender muito das ações dos próprios jogadores. Porém, não é aquele tipo de jogo que termina de repente. O andamento é claro, então dá para fazer um bom planejamento.

A partida que eu joguei me pareceu um pouco longa demais para a proposta do jogo, apesar de oferecer algum potencial estratégico, ele possui uma complexidade baixa. Isso sem contar com o Press Your Luck bastante presente. O que é bastante temático também, afinal de contas o mar é bem imprevisível. Mas eu acho que demorou também porque era uma mesa com 5 novatos. Acredito que jogando com todo mundo já conhecendo as regras, ele deva rodar mais rápido. Estou bem ansiosa para jogá-lo novamente. Espero ter a oportunidade de fazer um post completo ou um vídeo sobre ele.

Confira mais alguns jogos que rolaram nesta edição do Guadalupeças:




Obrigada pela presença de todos em mais um Guadalupeças, espero revê-los no mês que vem. Quero agradecer também ao pessoal do Nerd Quest que compareceu ao evento pela primeira vez e escreveu uma matéria bem bacana sobre a gente, com direito a entrevista. Eles são um site que cobre eventos nerds no RJ. Não sabe o que fazer, para onde ir, dá uma olhada lá que tem um monte de dica legal. Não deixe de nos acompanhar nas redes sociais para saber novidades sobre o evento e ficar bem informado sobre as novidades do hobby. Além aqui do blog e da página no Facebook, agora nós estamos reforçando nosso trabalho no Youtube. Faça a sua inscrição que toda semana tem conteúdo novo.

Lembrando que a loja Game of Boards é a nossa parceira oficial. Em todas as edições, você pode comprar online e buscar seu jogo no evento. Compre em : www.gameofboards.com.br

domingo, 12 de fevereiro de 2017

Dogs


Semana passada tivemos uma notícia muito bacana, o lançamento do FC internacional do jogo Dogs do Marcos Macri, um dos grandes nomes do game design brasileiro. Sendo reconhecido pelo público pela consistência e qualidade do seu trabalho, o autor viabiliza seus lançamentos de maneira independente através de sua própria editora, a MS Jogos. São lançados em média cerca de dois jogos por ano em edições limitadas e sistema de pronta-entrega. Ao todo já foram colocados no mercado oito títulos, sendo que os três primeiros já tiveram reedições. Todos os jogos do Macri são Euros de leve-médio porte e seguem um padrão de tipo e quantidade componentes, mas os temas são bem variados. Outro grande destaque da MS Jogos é o preço, melhor relação custo-benefício do mercado.


Eu só escrevi sobre um jogo do Macri até hoje aqui no blog, quando teve a reedição do Gran Circo, que foi o primeiro título lançado pela MS Jogos. Antes disso, o autor já havia publicado jogos por outras editoras, sendo Vale dos Monstros pela Galápagos Jogos, o mais conhecido desse período. No ano passado, após alguns lançamentos mornos, Macri voltou a ter grande destaque com Jester, vencedor do prêmio da Ludopedia de Melhor Nacional do Ano. 

Dogs é o único jogo do Macri a ter sido reeditado três vezes e ganhou uma boa repercussão ao ser resenhado pelo Rahdo, um dos youtubers gringos mais populares dentro do hobby. A segunda reedição deixou um pouco a desejar, introduzindo alterações que foram rejeitadas pelo público. O equívoco foi reconhecido na reedição mais recente que trouxe de volta o jogo original, acrescentando apenas uma nova arte de capa que deixou os donos da primeira edição passando vontade.


Eu gosto muito de Dogs e acho que é o jogo mais bem acabado do Macri. Devo deixar claro que ainda não tive a oportunidade de experimentar todos os títulos já lançados. Ele tem regras bem simples e fáceis de entender, além do tema bastante leve e convidativo. Acho que é um jogo muito bom para apresentar para novos jogadores, mas que não deixa de ser interessante para jogadores mais experientes, pois mantém o desafio clássico da administração de recursos.

Em Dogs, os jogadores disputam para ver quem é o melhor administrador de abrigo de cães. O tabuleiro principal apresenta a cidade onde os cães estão dispostos para serem coletados e cada jogador possui seu tabuleiro individual que representa seu abrigo. Ambos os tabuleiros são excelentes, o principal se destaca pelo ótimo trabalho de arte do Diego Sanchez e os individuais por sua funcionalidade, tem espaço para acomodar todos os itens necessários confortavelmente, tudo muito bem divido e indicado com clareza. Além disso, o jogo também possui um tabuleiro de seleção de ações, que consiste em sua parte mais estratégica.


Dogs é divido em 3 fases: andar pela cidade recolhendo os cães, selecionar ações específicas e manutenção. Os cães estão divididos em duas categorias: cidade e campo. Além disso, eles podem ser saudáveis, doentes ou perdidos. O jogo termina quando não é mais possível repor os tiles de cães. Todos os jogadores se movem alternadamente a partir do centro do tabuleiro e cada movimento gasta um de gasolina. Os jogadores podem se movimentar quantas vezes quiserem, a única exigência é que guardem combustível  para o retorno ao abrigo.


Os jogadores começam tendo duas baias liberadas para acomodarem os cães e outras três que ainda precisam ser construídas. Cada baia possui espaço para quatro cães, mas apenas duas raças diferentes podem ser colocadas juntas no mesmo espaço. A pontuação do jogo é através de Set Collection de cães. O ideal é colocar apenas uma única raça por baia. Toda vez que os jogadores distribuem os cães recolhidos na tabuleiro principal em seu abrigo, eles podem também reorganizar aqueles que já possui. Se em algum momento, o jogador não tiver como acomodar um cão, ele deverá doá-lo para um oponente ou para feira de cães. Isso só é válido para cães saudáveis, não é possível doar cães doentes.


Apenas os cães saudáveis vão direto para as baias, aqueles que estiverem doentes devem ser colocados primeiro na enfermaria, sendo necessário tratá-los com remédio para que fiquem curados. Cada cão doente ainda na enfermaria no final da partida faz o jogador vale 2 pontos negativos. Os cães perdidos são enviados para feira de cães e o jogador que o recolheu recebe uma recompensa em dinheiro. Os cães localizados no campo valem mais por causa da distância. O primeiro e o último jogador a retornarem aos seus abrigos recebem um recurso qualquer como bônus.

Após todos os jogadores terem recolhidos os cães pelo mapa e posicionado-os em seus respectivos abrigos, começa a segunda fase do jogo, que é a seleção de ações realizada através de um sistema de Work Placement. Cada jogador possui dois workers, o dono do abrigo e um ajudante, e são cinco as ações possíveis. Ao posicionar seu worker em um determinado local, além da ação em si, os jogadores ainda escolhem uma das duas cartas abertas. As cartas podem ter efeito imediato fornecendo recursos extras ou podem ter efeitos específicos para utilização em determinadas ações. Cada local comporta apenas dois workers e fazer a ação não é obrigatório. Pode ser que o jogador queira posicionar ali só para pegar uma carta ou bloquear um oponente.


Todos os locais de ação são bem simples de entender o funcionamento, pois a iconografia é bastante clara. O único local que pode precisar de um pouco mais atenção é a feira de cães, isso porque múltiplas opções estão concentradas nesse espaço. Nele é possível trocar, vender e comprar cães. As cartas em geral são também fáceis de entender, apenas uma ou outra necessita consulta ao manual, até porque não existe uma grande variedade delas. 

Terminada a alocação dos workers vem a fase de manutenção onde é necessário alimentar os cães, uma ração por baia, e pagar o ajudante, se não for pago, ele vai embora e no próximo turno o jogador fica com apenas uma ação. Depois disso, são repostos os cães nos espaços que estiverem vagos no tabuleiro e é iniciado um novo turno.

O jogo que está em FC no Kickstarter apresenta modificações mínimas em relação do que já foi lançado aqui no Brasil. Isso é algo que merece destaque porque demostra a sua qualidade. Eles mesmos destacam essa informação na página do financiamento. O jogo passou por alterações estéticas e adições de regras, mas tudo bem pequeno.  A edição internacional de Dogs altera a arte das cartas, que eu ainda prefiro a da nossa edição, e a arte do tabuleiro de seleção de ações, essa realmente ficou melhor na versão gringa. Eles adicionaram um espaço para cada animal da feira de cães, o que deixa o espaço bem mais organizado e fácil de consultar. A arte em si também ficou bem mais bonita, combinando até melhor com a do tabuleiro principal que se manteve inalterada.


A edição gringa também alterou a cor da parte de trás dos tiles dos cães para diferenciar os do campo e os da cidade, aqui é branco e preto, lá eles alteraram para azul e verde. Além disso, eles adicionaram sacolas para colocar os cães, que não ficarão mais empilhados. Acho que isso organiza melhor o jogo e ainda dificulta um pouco calcular o seu final.

Quanto as regras em si, eu não sei exatamente quais foram as alterações, pois não encontrei o manual desta edição. Na página da campanha é informado que houve adição de mais opções para disparar o fim da partida e tiles de obras na pista, que são misturados junto com os cães. É uma regra para dois jogadores, mas que pode ser utilizada para 3-4 jogadores também. Acredito que eles lá tenham sentido a necessidade de deixar o jogo mais apertado. Eles também diminuíram as quantidades dos recursos de acordo com o número de jogadores.  

Dogs atualmente está esgotado no site da MS Jogos, mas é possível comprá-lo de segunda mão. Neste caso, recomendo apenas atenção para verificar de qual edição se trata, dando preferência a primeira ou terceira edição. Espero que o Kickstarter do Dogs lá fora seja um enorme sucesso porque o jogo merece, mais da metade da meta já foi, e que com isso tenhamos em breve uma quarta edição nacional com as melhorias da edição gringa.

Confira mais sobre o jogo assistindo ao nosso vídeo: